A divulgação de uma foto de Paulo Gonet ao lado de Daniel Vorcaro aumentou a pressão sobre o procurador-geral da República dentro do Ministério Público Federal. O registro mostra Gonet e o ex-dono do Banco Master em um encontro realizado em Londres, em 2024, diante de uma mesa com copos de uísque e com um charuto na mão.
A imagem apareceu às vésperas de o Conselho Superior do Ministério Público Federal analisar as referências ao chefe da PGR encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Antes da foto, havia constrangimento e críticas pontuais à atuação de Gonet. Depois dela, o ambiente ficou mais pesado e integrantes da carreira passaram a cobrar explicações mais firmes sobre a relação entre os dois.
FOTO MUDA O CLIMA NA PGR
A fotografia atingiu um ponto sensível porque tornou visível uma proximidade que, até então, aparecia principalmente em mensagens e relatos. A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade do registro e lembrou que Gonet já havia reconhecido a presença no evento, que reuniu outras autoridades.
O procurador-geral sustenta que encontrou Vorcaro uma única vez, em abril de 2024, num compromisso com várias pessoas. Segundo ele, a conversa foi breve e não resultou em amizade, relação pessoal ou interferência nas apurações que envolvem o Banco Master.
“Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro”, afirmou Gonet ao se defender durante sessão do Supremo Tribunal Federal. Ele também declarou que a atuação do Ministério Público buscou esclarecer os fatos e permitir o avanço da investigação.
O problema político e institucional está no contraste entre essa versão de contato banal e o conteúdo descontraído das conversas que chegaram ao celular do banqueiro. A foto não prova favorecimento, mas elevou o custo das explicações e enfraqueceu o apoio interno que ainda protegia o procurador-geral.
MENSAGENS CITAM CHARUTO E UÍSQUE
O procedimento surgiu depois que a Polícia Federal encontrou diálogos entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares, que atuava para o Master. Em uma troca de mensagens de março de 2025, o advogado informou que Gonet viajaria a Londres e encaminhou uma manifestação atribuída ao procurador sobre a possibilidade de haver charuto e uísque Macallan no encontro.
Vorcaro respondeu em tom de brincadeira. Em outra conversa, Soares enviou ao banqueiro uma foto ao lado de Gonet e escreveu que o procurador queria falar com ele. Registros de ligações aparecem logo depois da mensagem.
Esses elementos serão analisados para saber se existe motivo para questionar a imparcialidade de Gonet nos casos ligados ao Master. O procedimento ainda não é um processo disciplinar e não há, até agora, uma indicação fechada de que o conselho abrirá investigação contra o chefe da PGR.
CONSELHO ANALISA O CASO
A discussão está marcada para sexta-feira, dia 25, e terá relatoria do subprocurador-geral Francisco de Assis Vieira Sanseverino. O Conselho Superior possui dez integrantes e é presidido pelo próprio Gonet. Ele, porém, não deve participar da análise sobre a própria conduta.
Em manifestação enviada ao colegiado, Gonet negou amizade com Vorcaro, afirmou não ter interesse pessoal nos processos do ex-banqueiro e argumentou que as mensagens não justificam a abertura de uma apuração formal.
O ministro André Mendonça também declarou que não identificou conteúdo grave contra o procurador-geral ao examinar o material. A avaliação provocou uma discussão dura com Gilmar Mendes durante sessão do STF. Pouco depois, Flávio Dino pediu vista e interrompeu o julgamento.
Gilmar saiu em defesa de Gonet nas redes sociais, classificou sua reputação como ilibada e afirmou que a divulgação das conversas atingiu injustamente a imagem do procurador. A defesa pública, contudo, não encerrou o desgaste dentro do Ministério Público.
PRESSÃO VAI ALÉM DA FOTO
O conselho terá de separar três questões: a existência do encontro, o tom das mensagens e a atuação concreta da PGR nos processos do Master. A fotografia dá rosto à controvérsia, mas a decisão dependerá de saber se os contatos tiveram algum efeito sobre as investigações.
Até a sessão, Gonet enfrenta uma cobrança dupla: convencer os colegas de que o encontro não criou proximidade com Vorcaro e demonstrar que a PGR agiu com independência em todos os episódios ligados ao banco.

