Por Eduardo Pandeló | Artigo de opinião — Parte 2
O Grupo Globo anunciou, em 15 de outubro, a demissão de Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após a divulgação de conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre 2023 e 2025.
A própria empresa reconheceu, em comunicado, que as mensagens revelavam uma relação inadequada do executivo com um anunciante. Ao mesmo tempo, reafirmou a independência editorial de seus veículos, entre eles O Globo, Extra, Valor Econômico e CBN.
A distinção é necessária: a conduta de um executivo não comprova automaticamente a submissão de todas essas redações. Mas a posição que ele ocupava torna legítima uma cobrança pública por transparência, investigação interna e esclarecimentos.
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RELAÇÕES SOB SUSPEITA
Outras reportagens passaram a examinar relações do banqueiro com publicações como Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, DCM e Carta Capital, envolvendo diferentes tipos de contatos, investimentos, pagamentos e possíveis interferências.
Cada situação precisa ser apurada individualmente, com documentos, contraditório e responsabilidade.
Mas uma pergunta atravessa todos esses episódios:
Quem estava decidindo o que era notícia? O jornalista ou quem financiava o negócio?
AMEAÇA A JORNALISTA
Há uma contradição particularmente reveladora nessa história. Enquanto mensagens expõem proximidades entre dirigentes de comunicação e o banqueiro, a Polícia Federal também identificou conversas nas quais Vorcaro teria sugerido violência contra um jornalista que publicara informações contrárias aos seus interesses.
O profissional foi identificado pela CNN Brasil como Lauro Jardim, colunista de O Globo.
O episódio demonstra por que é injusto colocar todos os jornalistas na mesma condição. Existem profissionais que investigam, enfrentam pressões e publicam informações incômodas, inclusive contra interesses poderosos.
CREDIBILIDADE EM QUESTÃO
Ainda assim, a exposição dessas relações atinge a credibilidade de todo o sistema de comunicação. Durante décadas, grandes veículos construíram sua autoridade em torno de palavras como isenção, independência, credibilidade e imparcialidade.
É preciso perguntar quanto dessas promessas correspondia à prática e quanto dependia de relações comerciais que o público desconhecia.
Os veículos têm linhas editoriais. Seus proprietários têm interesses. Seus profissionais têm convicções. Nada disso, isoladamente, invalida o jornalismo.
O problema começa quando interesses particulares são apresentados como informação independente, sem que o público conheça os vínculos capazes de influenciar a cobertura.
TRANSPARÊNCIA PARA TODOS
E não basta exigir transparência de governos, parlamentares, empresários e instituições financeiras. A imprensa, que cobra explicações de todos, também precisa explicar suas próprias relações de poder.
Não pode haver dois códigos de ética: um para os investigados e outro para quem publica as investigações.




